Google
Pesquisa personalizada
Política de Privacidade   Visitantes: 344905
voltar escrever mais uma

Gente Grande

 José Orquiza tem dois nascimentos. De fato nasceu no dia 17 de julho de 1926. No registro civil, consta 8 de dezembro de 1926. Podia comemorar dois aniversários.

Quando nasceu, Francisco de Paula Urquiza, seu pai, trabalhava de carpinteiro em Borborema, Estado de São Paulo, conhecido com Fugidos. Esse nome surgiu dos escravos que buscavam sua própria alforria no fim do mundo, um lugar inalcançável pelos livres e brancos. Borborema ficava nos confins do Estado de São Paulo.

No início dos anos 1900 foi descoberta pelos imigrantes que derrubaram suas matas, que plantaram algodão, que semearam café, que levaram o gado, que iniciaram sua ocupação. Na frente de todos estavam alguns italianos e portugueses, gente do império, caboclos de tempos bravios.

Neste processo de colonização, vieram os Urquiza que já estavam acostumados a procurar a terra prometida. Da Espanha, vieram para Rio Claro, depois para a Fazenda Chapadão, depois para Charqueada, depois para a Fazenda da Lapa localizada na parte baixa de Charqueada, e de lá para Borborema.

Não pararam aí. Foram para Bocaina na Fazenda Bananal, depois para Barra Bonita na Fazenda Sobrado, depois para Cerqueira César, depois para Botucatu na Fazenda Santo Antônio, depois para São Manoel na Fazenda Usina até chegarem em 1948 na Fazenda Cachoeira, em São Sebastião da Amoreira, quando ainda fazia parte de Assaí.

Em quase 30 anos, a família de Francisco e Maria del Carmem Enriqueta mudaram oito vezes, permanecendo em média 4 anos em cada local. Neste processo evolutivo, Francisco de Paula, que começou como carpinteiro foi revelando o dom em liderar os homens daquele tempo até chegar ao topo de administrador de uma das maiores fazendas de café do Paraná, com 3 milhões e meio de pé de café, pertencente a Geremias Lunardelli.

A Fazenda Cachoeira foi a terra prometida. José Orquiza foi para Londrina para trabalhar no escritório regional de Lunardelli. Foi assim que conheceu Antonia Loiercio, casou e construiu uma família de 10 filhos, 5 homens e 5 mulheres. A pequena Sirley faleceu com 1 mês de idade. Era a terceira filha.

A partir de 1955 mudou-se definitivamente para Londrina, passando antes pelas Fazendas Cachoeira e Cascata, esta em Bela Vista do Paraíso. E aí ficou até morrer no dia 25 de dezembro de 2011, com a idade de 85 anos, 5 meses e 8 dias.

Em Londrina, foi empresário bem sucedido, rico, e faliu. Foi representante comercial bem sucedido e quebrou. Foi vendedor bem sucedido e sucumbiu. Apostou na sorte e sempre que subiu um degrau, a escada se rompia.

Mesmo assim, foi um homem de fé, desbravador, ousado, capaz de lutar até o momento de aposentar as chuteiras. Em seus sonhos, começou a escrever um, dois e três livros, este último com edição póstuma, incumbência de seus filhos.

Poucos conseguem imaginar a dor de cair por três vezes neste mundo econômico que costuma medir as pessoas pelo sucesso financeiro alcançado.

No fim, vi este homem crescer e se agigantar, ultrapassando mitos, compreendendo a vida, abrindo seu coração.

Tenho orgulho desta capacidade de crescer e recrescer, deste aprender e reaprender, deste tentar continuamente custe o que custar. Só os grandes homens conseguem se desprender de suas ancoras procurando sempre novos horizontes. Eis o pequeno grande homem José Orquiza, alguém a ser imitado.

Agora, o bastão da vida está em nossas mãos. E como todos, vamos morrer em um dia incerto. O que importa é transmitir a vida para todos que nos sucederem. O que importa é construir uma humanidade melhor. O que importa é alargar os horizontes para todos. O que importa é aprender e reaprender como gente grande. 

Autor: Orquiza, José Roberto

09 de janeiro de 2012 às 18:10:52
voltar escrever mais uma